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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Perfil Cognitivo



Conheça o seu Perfil Cognitivo por meio do resultado dos testes oferecidos pelo Espaço Educacional. É um recurso de autoconhecimento que nos ajuda a ter uma visão panorâmica de nosso potencial e de nossas fragilidades. A partir do resultado, aprendemos a explorar nossas habilidades, potencializando-as, e a exercitar aquilo que precisamos desenvolver.

Com os estilos de aprendizado, exercitamos a nossa comunicação e nossa forma de aprender, passamos a observar e reconhecer como as pessoas aprendem para conquistar uma comunicação eficiente e uma aprendizagem produtiva. 

Com os estilos de raciocínio ou de comportamento, exercitamos nossa capacidade para resolver problemas com inteligência emocional, ou seja, acessar o hemisfério cerebral esquerdo para enxergar a realidade e o hemisfério cerebral direito para ter acesso aos nossos sentimentos e, assim, agirmos alinhados com nossas convicções. A busca do equilíbrio entre razão e emoção é um processo que nos acompanha a vida toda e que nos auxilia a fazer escolhas.

Com as inteligências múltiplas, descobrimos nossas áreas de interesse, onde se localizam nossas habilidades e talentos. Uma nova concepção do que é ser inteligente surge e tem muito a ver com as exigências do século XXI. As inteligências múltiplas podem ser utilizadas como um recurso que nos agrega muitos benefícios, como aliar vocação com profissão, descobrir canais saudáveis para liberar o estresse e estimular a criatividade.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Ensinar a cuidar do que é seu também é dar educação financeira



O tema desta semana é educação financeira. Compartilhamos as excelentes dicas de Andy de Santis, autora do livro "Lições de Valor", publicadas no blog da Editora Moderna:

À medida que cresce e se desenvolve, aumenta o contato da criança com objetos de uso pessoal e coletivo. Brinquedos, uniformes, materiais escolares, carteiras, aparelhos odontológicos, smartphones, instrumentos musicais, livros, mesas de estudo, cadeiras, jardins, lixeiras serão elementos presentes na vida escolar e oferecem grandes oportunidades de trabalhar a questão da educação financeira. 

Ainda não encontrei pesquisas a respeito, mas desconfio que a criança que não aprendeu desde cedo a cuidar dos pertences pessoais e coletivos terá menos chance de construir uma vida financeira equilibrada no futuro. O raciocínio parte de três pressupostos, o primeiro mais simples e imediato: tudo à nossa volta custa dinheiro. Quando perdemos ou quebramos algo que precisa de conserto ou reposição, isso resulta em prejuízo que poderia ter sido evitado se houvesse mais atenção ou cuidado.

A segunda premissa diz respeito à forma como pais e professores educam as crianças a assumirem gradativamente a responsabilidade por cuidar de seus pertences. Alguns adultos fazem tudo pela criança, ‘liberando-a’ de cuidar de sua higiene, seus objetos e seus animais de estimação, afinal “ela é muito nova para ter responsabilidades”. É importante lembrar que a responsabilidade é um valor a ser ensinado e quando não há espaço para exercê-la, a criança simplesmente não irá desenvolvê-la. Como não aprendeu a tomar conta do que é seu (e consequentemente do que é de todos), esse adulto poderá culpar o chefe, o governo, a esposa e até o clima pela falta de dinheiro, de água ou pelos imprevistos que surgirem no caminho. Será que uma pessoa nessa posição de ‘vítima’ terá disposição e disciplina para controlar seu orçamento e fazer uma reserva para imprevistos? Tenho minhas dúvidas.

O terceiro aspecto está ligado à reação dos adultos quando algo que pertence à criança é perdido ou quebrado. É muito doloroso ver sua expressão de choro e frustração, o que nos faz correr para acalmar a criança e devolver a ela sua alegria e bem-estar. Por outro lado, lidar com as consequências da sua falta de atenção é uma lição de valor fundamental para que as crianças aprendam atitudes de prevenção, precaução e cuidado com seus pertences e com tudo que representa o patrimônio material ou cultural construído pelo homem, assim como o patrimônio natural disponível para a sobrevivência de todos nós. Futuramente, será mais fácil ensinar a esse adulto a importância de proteger o patrimônio da família, prevenir imprevistos, planejar e calcular seus riscos, pois ele saberá desde cedo as consequências da falta de cuidado.

Aqui vão algumas dicas para estimular o senso responsabilidade da criança e do jovem.

Delegue responsabilidades na medida certa

É saudável delegar à criança algumas responsabilidades ao seu alcance, como cuidar de seus brinquedos, organizar o quarto, administrar sua mesada, ajudar nas tarefas domésticas e escolares, organizar seus materiais, apontar seus lápis e cuidar do ambiente em sala de aula. 

Convide a criança a tomar decisões

Convidá-la a decidir coletivamente sobre um passeio da escola ou sobre o tema da peça de final de ano, deixá-la assumir alguns riscos e lidar com as consequências das decisões tomadas terá efeito pedagógico importante no desenvolvimento de sua responsabilidade. 

Não elimine ou tente compensar frustrações

Se ela quebrar ou perder algo, tirar notas baixas, esquecer um compromisso ou gastar todo seu dinheiro, não reponha imediatamente nem tente compensar a frustração com presentes ou doces. Acolha e ampare sua tristeza, mas aproveite a oportunidade como lição para lembrá-la da importância de ser responsável por seus pertences e tarefas. 

Incentive-a a preservar o que é de todos

Lixeiras, bancos, carteiras da escola, jardins, praças, estátuas, ruas e canteiros da cidade devem ser preservados e cuidados por todos nós. Quanto antes a consciência das crianças e jovens for chamada para a importância dessa preservação, menos recursos privados ou públicos precisarão ser gastos com a manutenção deste patrimônio.

Andy de Santis é autora do livro Lições de Valor

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

"É preciso educar os educadores"



O antropólogo, sociólogo e filósofo Edgar Morin criticou o modelo de ensino ocidental de ensino e disse que o professor tem uma missão social e, por isso, "é preciso educar os educadores". Confira a entrevista do pensador francês para o jornal O Globo:

O Globo: Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?
Edgar Morin: A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal" de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado.

É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.

O Globo: Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?
Edgar Morin: O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão.

O Globo: O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?
Edgar Morin: Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar.

Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.

O Globo: O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?
Edgar Morin: As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte" é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.

O Globo: Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?
Edgar Morin: É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A milenar arte de educar dos povos indígenas



Confira a análise publicada no site Conti Outra sobre a milenar arte de educar dos povos indígenas. O texto é de Daniel Munduruku, graduado em filosofia, história e psicologia, doutor em educação e escritor premiado da etnia Munduruku:

Educar é dar sentido. É dar sentido ao nosso estar no mundo. Nossos corpos precisam desse sentido para se realizar plenamente. Mas também nossos corpos são vazios de imagens e elas precisam fazer parte da nossa mente para possamos dar respostas ao que se nos apresenta diuturnamente como desafios da existência. É por isso que não basta dar alimento apenas ao corpo, é preciso também alimentar a alma, o espírito. Sem comida o corpo enfraquece e sem sentido é a alma que se entrega ao vazio da existência.

A educação tradicional entre os povos indígenas se preocupa com esta tríplice necessidade: do corpo, da mente e do espírito. É uma preocupação que entende o corpo como algo prenhe de necessidades para poder se manter vivo.

Esta visão de educação é sustentada pela idéia de que cada ser humano precisa viver intensamente seu momento. A criança indígena é, então, provocada para ser radicalmente criança. Não se pergunta nunca a ela o que pretende ser quando crescer. Ela sabe que nada será se não viver plenamente seu ser infantil. Nada será por que já é. Não precisará esperar crescer para ser alguém. Para ela é apresentado o desafio de viver plenamente seu ser infantil para que depois, quando estiver vivendo outra fase da vida, não se sinta vazia de infância. A ela são oferecidas atividades educativas para que aprenda enquanto brinca e brinque enquanto aprende num processo contínuo que irá fazê-la perceber que tudo faz parte de uma grande teia que se une ao infinito.

Num mesmo movimento ela vai sendo introduzida no universo espiritual. Embalada pelas histórias contadas pelos velhos da aldeia, a criança e o jovem passam a perceber que em seu corpo moram os sentidos da existência. Este sentido é oferecido pela memória ancestral concentrada nos velhos contadores de histórias. São eles que atualizam o passado e o fazem se encontrar com o presente mostrando à comunidade a presença do saber imemorial capaz de dar sentido ao estar no mundo. 

Este processo todo é alimentado por rituais que lembram o passado para significar o presente. São movimentos corpóreos embalados por cantos e danças repetidos muitas vezes com o objetivo de “manter o céu suspenso”. A dança lembra a necessidade de sermos gratos aos espíritos criadores; contam que precisamos de sentidos para viver dignamente; ordena a existência. Cada grupo de idade ritualiza a seu modo. Cada um se sente responsável pelo todo, pela unidade, pela continuidade social.

Educar é, portanto, envolver. É revelar. É significar. É mostrar os sentidos da existência. É dar presente. E não acaba quando a pessoa se “forma”. Não existe formatura. Quem vive o presente está sempre em processo.

É por isso que a criança será sempre criança. Plenamente criança. Essa é a garantia de que o jovem será jovem no seu momento. O homem adulto viverá sua fase de vida sem saudades da infância, pois ele a viveu plenamente. O mesmo diga-se dos velhos. O que cada um traz dentro de si é a alegria e as dores que viveram em cada momento. Isso não se apaga de dentro deles, mas é o que os mantém ligados ao agora.

Resumo da ópera: A educação tradicional indígena tem dado certo. As pessoas se sentem completas quando percebem que a completude só é possível num contexto social, coletivo. Cada fase porque passa um indígena – desde a mais tenra idade – alimenta um olhar para o todo, pois o conhecimento que aprendem e vivem é um saber holístico que não se desdobra em mil especialidades, mas compreende o humano como uma unidade integrada a um Todo maior e Único.

Olhar os povos indígenas brasileiros a partir de uma visão rasa de produção, de consumo, de riqueza e pobreza é, no mínimo, esvaziar os sentidos que buscam para si.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Didática do Afeto



Em entrevista à revista Época, o psiquiatra chileno Claudio Naranjo disse que investir numa didática afetiva é a saída para estimular o autoconhecimento dos alunos e formar seres autônomos e saudáveis. Confira o texto publicado na revista:

ÉPOCA – O senhor é psiquiatra e desenvolveu teorias importantes em estudos de personalidade. Hoje trabalha exclusivamente com educação. Por que resolveu se dedicar a esse tema?

Claudio Naranjo – Meu interesse se voltou para a educação porque me interesso pelo estado do mundo. Se queremos mudar o mundo, temos de investir em educação. Não mudaremos a economia, porque ela representa o poder que quer manter tudo como está. Não mudaremos o mundo militar. Também não mudaremos o mundo por meio da diplomacia, como querem as Nações Unidas – sem êxito. Para ter um mundo melhor, temos de mudar a consciência humana. Por isso me interesso pela educação. É mais fácil mudar a consciência dos mais jovens.

ÉPOCA – Quais os problemas do modelo educacional atual na opinião do senhor?

Naranjo – Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações. É um programa que rouba a infância e a juventude das pessoas, ocupando-as com um conteúdo pesado, transmitido de maneira catedrática e inadequada. O aluno passa horas ouvindo, inerte, como funciona o intestino de um animal, como é a flora num local distante e os nomes dos afluentes de um grande rio. É uma aberração ocupar todo o tempo da criança com informações tão distantes dela, enquanto há tanto conteúdo dentro dela que pode ser usado para que ela se desenvolva. Como esse monte de informações pode ser mais importante que o autoconhecimento de cada um? O nome educação é usado para designar algo que se aproxima de uma lavagem cerebral. É um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.

ÉPOCA – Como é possível mudar esse modelo?

Naranjo – Podemos conceber uma educação para a consciência, para o desenvolvimento da mente. Na fundação, criamos um método para a formação de educadores baseado em mais de 40 anos de pesquisas. O objetivo é preparar os professores para que eles se aproximem dos alunos de forma mais afetiva e amorosa, para que sejam capazes de conduzir as crianças ao desenvolvimento do autoconhecimento, respeitando suas características pessoais. Comprovamos por meio de pesquisas que esse é o caminho para formar pessoas mais benévolas, solidárias e compassivas. Hoje a educação é despótica e repressiva. É como se educar fosse dizer faça isso e faça aquilo. O treinamento que criamos está entre os programas reconhecidos pelo Fórum Mundial da Educação, do qual faço parte. Já estive com ministros da Educação de dezenas de países para divulgar a importância dessa abordagem.

ÉPOCA – E qual foi a recepção? 

Naranjo – A palavra amor não tem muita aceitação no mundo da educação. Na poesia, talvez. Na religião, talvez. Mas não na educação. O tema inteligência emocional é um pouco mais disseminado. É usado para que os jovens tomem consciência de suas emoções. É bom que exista para começar, mas não tem um impacto transformador. A inteligência emocional é aceita porque tem o nome inteligência no meio. Tudo o que é intelectual interessa. Não se dá importância ao emocional. Esse aspecto é tratado com preconceito. É um absurdo, porque, quando implementamos uma didática afetuosa, o aluno aprende mais facilmente qualquer conteúdo. Os ministros da Educação me recebem muito bem. Eles concordam com meu ponto de vista, mas na prática não fazem nada. Pode ser que isso ocorra por causa da própria inércia do sistema. O ministro é como um visitante que passa pelos ministérios e consegue apenas resolver o que é urgente. Ele mesmo não estabelece prioridades. Estou mais esperançoso com o novo ministro da Educação de vocês (Renato Janine Ribeiro). Ele me convidou para jantar, para falarmos sobre minhas ideias. É a primeira vez que a iniciativa parte do lado do governo. Ele é um filósofo, pode fazer alguma diferença.

ÉPOCA – Para quem decidiu ser professor, não seria natural sentir amor, compaixão e vontade de cuidar do aluno?

Naranjo – Uma vez dei uma aula a um grupo de estudantes de pedagogia na Universidade de Brasília. Fiquei muito decepcionado com a falta de interesse. Vendo minha expressão, o coordenador me disse: “Compreenda que eles não escolheram ser educadores. Alguns prefeririam ser motorista de táxi, mas decidiram educar porque ganham um pouco mais e têm um pouco mais de segurança. Estão aqui porque não tiveram condições de se preparar para ser advogados ou engenheiros ou outra profissão que almejassem”. Isso acontece muito em locais em que a educação não é realmente valorizada. Quem chega à escola de educação são os que têm menos talento e menos competência. Não se pode esperar que tenham a vocação pedagógica, de transmitir valores, cuidar e acolher.

ÉPOCA – O senhor diz que o sistema de educação atual desperdiça talentos, rotulando-os com transtornos e distúrbios. Pode explicar melhor esse ponto?

Naranjo – Humberto Maturana, cientista chileno, me contou que a membrana celular não deixa entrar aquilo que ela não precisa. A célula tem um modelo em seus genes e sabe o que necessita para construir-se. Um eletrólito que não lhe servirá não será absorvido. Podemos usar essa metáfora para a educação. As perturbações da educação são uma resposta sã a uma educação insana. As crianças são tachadas como doentes com distúrbios de atenção e de aprendizado, mas em muitos casos trata-se de uma negação sã da mente da criança de não querer aprender o irrelevante. Nossos estudantes não querem que lhe metam coisas na cabeça. O papel do educador é levá-lo a descobrir, refletir, debater e constatar. Para isso, é essencial estimular o autoconhecimento, respeitando as características de cada um. Tudo é mais efetivo quando a criança entende o que faz mais sentido para ela.

ÉPOCA – Por que a educação caminhou para esse modelo?

Naranjo – Isso surgiu no começo da era industrial, como parte da necessidade de formar uma força de trabalho obediente. Foi uma traição ao ideal do pai do capitalismo, Adam Smith, que escreveu A riqueza das nações. Ele era professor de filosofia moral e se interessava muito pelo ser humano. Previu que o sistema criaria uma classe de pessoas dedicadas todos os dias a fazer só um movimento de trabalho, a classe de trabalhadores. Previu que essa repetição produziria a deterioração de suas mentes e advertiu que seria vital dar a eles uma educação que lhes permitisse se desenvolver, como uma forma de evitar a maquinização completa dessas pessoas. Sua mensagem foi ignorada. Desde então, a educação funciona como um grande sistema de seleção empresarial. É usada para que o estudante passe em exames, consiga boas notas, títulos e bons empregos. É uma distorção do papel essencial que a educação deveria ter.

ÉPOCA – Há algo que os pais possam fazer?

Naranjo – Muitos pais só querem que seus filhos sigam bem na escola e ganhem dinheiro. Acho que os pais podem começar a refletir sobre o fato de que a educação não pode se ocupar só do intelecto, mas deve formar pessoas mais solidárias, sensíveis ao outro, com o lado materno da natureza menos eclipsado pelo aspecto paterno violento e exigente. A Unesco define educar como ensinar a criança a ser. As Constituições dos países, em geral, asseguram a liberdade de expressão aos adultos, mas não falam das crianças. São elas que mais necessitam dessa liberdade para se desenvolver como pessoas sãs, capazes de saber o que sentem e de se expressar. Se os pais se derem conta disso, teremos uma grande ajuda. Eles têm muito poder de mudança.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Empreendedor de 86 anos cria jogo para estimular o aprendizado da tabuada
O X da Questão surgiu há três anos e agora o projeto é acelerado pelo Seed, de Minas Gerais
Por Fabiano Cândido com Marina Salles 

Nos fundos de casa, Garcia mantém uma máquina de serigrafia montada para imprimir os jogos manualmente.

Nunca é tarde para empreender. E o marceneiro aposentado Hermenegildo Garcia, 86 anos, prova isso na prática, diariamente. Há três anos, ele criou um jogo para facilitar o aprendizado da tabuada entre crianças, chamado de O X da Questão. O sucesso na empreitada foi tanto que agora ele tem planos de lançar outro jogo para ajudar na alfabetização infantil.

Garcia começou a projetar o jogo nos fundos de casa, para ocupar a cabeça. No local, ainda estão as primeiras edições do jogo, espalhadas em mesas. O X da Questão é composto por peças, um tabuleiro e fichas para calcular e preencher pontos. Os primeiros jogos eram feitos manualmente e levavam um dia para ficar prontos.

Ao abrir a peça, a criança vê a operação de multiplicação, enquanto seus amigos memorizam o resultado da conta.

Para o empreendedor, foi essa mão de obra para produzir os joguinhos que impulsionou a empresa. Aconselhado pelo filho e sócio, Fábio Garcia, 51 anos, que é designer e publicitário, ele procurou o programa de aceleração do Seed (Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development), do governo de Minas Gerais. A ideia era aproveitar o potencial do jogo e levá-lo ao mercado. Em novembro de 2013, o projeto foi aprovado pela aceleradora e ganhou outra cara.

Para entrar no programa, Fábio ajudou o pai a apresentar a proposta do jogo e modelá-lo para a produção em larga escala, com impressão em gráfica. Os dois também precisaram dar uma base tecnológica à iniciativa. Da exigência, surgiu a Decoreba, personagem em realidade aumentada. O processo ocorreu dias antes de ele inscrever O X da Questão na primeira rodada de investimentos promovida pelo Seed, no ano passado.

Pensada para interagir com o público infantil em smartphones, tablets ou computadores, a Decoreba tem a função de estimular o aprendizado a partir de algumas reações. Quando a criança acerta a resposta da operação matemática, ela fica brava; quando erra, a Decoreba ganha pontos.

Fábio se mudou para uma república de estudantes em Belo Horizonte para acelerar a empresa criada pelo pai.

Garcia está feliz com o progresso de sua ideia e quer priorizar o acesso ao jogo, incentivando o aprendizado da matemática. “Trabalhamos com a oferta ‘compre um, doe um’, para aumentar o alcance da iniciativa e permitir que os jogos cheguem a comunidades carentes”.

Além dessa proposta, a startup envia com os jogos um tutorial de como realizar o Dia da Tabuada. Fábio diz que a ideia é que os jogos não fiquem guardados “juntando pó nas escolas”. Com essa mobilização, é possível chamar a atenção das crianças para O X da Questão e realizar dinâmicas que integrem alunos e professores. O jogo já tem uma versão em braile e os empreendedores esperam que o uso do aplicativo com sons facilite a interação das crianças cegas com os colegas.

A equipe de O X da Questão também tem a parceria do analista de marketing Guilherme Fuzatto e do programador Dirceu Silva que, junto com o time, buscam investimento para desenvolver o aplicativo da Decoreba e possibilitar a impressão do jogo em escala. Hoje, cada unidade sai por R$ 25, o que não gera uma receita significativa, levando-se em consideração os custos de impressão e o projeto “compre um, doe um”.



História

Neto de espanhóis, Garcia nasceu em um sítio em Mogi das Cruzes (SP) e cursou o ensino fundamental até a quarta série. Na escola, ele diz que não foi fácil aprender a tabuada. “Se errasse, a professora mandava copiar mil vezes.” Criar os jogos foi a forma que o empreendedor encontrou de se manter ativo e lutar contra os obstáculos da vida – ele sofreu um acidente doméstico e perdeu a visão de um dos olhos, teve câncer de próstata e mantém sob controle problemas de coração, mas não perde o bom humor. “Arrumei uma coisa para me ocupar, porque acho que a pessoa não deve parar nunca. O jogo tem sido meu passatempo.” Casado três vezes, ele tem oito netos, com quem divide os prazeres de testar cada nova ideia para o jogo. “Isso quando eles não tem preguiça”, brinca.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Estamos Enlouquecendo Nossas Crianças!
Estímulos Demais...Concentração de Menos
31 MAIO 2015 em Bem-estar, filhos

Vivemos tempos frenéticos. A cada década que passa o modo de vida de 10 anos atrás parece ficar mais distante: 10 anos viraram 30, e logo teremos a sensação de ter se passado 50 anos a cada 5. E o mundo infantil foi atingido em cheio por essas mudanças: já não se educa (ou brinca, alimenta, veste, entretêm, cuida, consola, protege, ampara e satisfaz) crianças como antigamente!
O iPad, por exemplo, já é companheiro imprescindível nas refeições de milhares de crianças.Em muitas casas a(s) TV(s) fica(m) ligada(s) o tempo todo na programação infantil – naqueles canais cujo volume aumenta consideravelmente durante os comerciais – mesmo quando elas estão comendo com o iPad à mesa.
Muitas e muitas crianças têm atividades extra curriculares pelo menos três vezes por semana, algumas somam mais de 50 horas semanais de atividades, entre escola, cursos, esportes e reforços escolares.
Existe em quase todas as casas uma profusão de brinquedos, aparelhos, recursos e pessoas disponíveis o tempo todo para garantir que a criança “aprenda coisas” e não “morra de tédio”.As pré escolas têm o mesmo método de ensino dos cursos pré vestibulares.
Tudo está sendo feito para que, no final, possamos ocupar, aproveitar, espremer, sugar, potencializar, otimizar e, finalmente, capitalizar todo o tempo disponível para impor às nossas crianças uma preparação praticamente militar, visando seu “sucesso”. O ar nas casas onde essa preocupação é latente chega a ser denso, tamanha a pressão que as crianças sofrem por desenvolver uma boa competitividade.
Porém, o excesso de estímulos sonoros, visuais, físicos e informativos impedem que a criança organize seus pensamentos e atitudes, de verdade: fica tudo muito confuso e nebuloso, e as próprias informações se misturam fazendo com que a criança mal saiba descrever o que acabou de ouvir, ver ou fazer.
Além disso, aptidões que devem ser estimuladas estão sendo deixadas de lado:
·       Crianças não sabem conversar
·       Não olham nos olhos de seus interlocutores
·       Não conseguem focar em uma brincadeira ou atividade de cada vez (na verdade a maioria sequer sabe brincar sem a orientação de um adulto!)
·       Não conseguem ler um livro, por menor que seja.
·       Não aceitam regras
·       Não sabem o que é autoridade.
·       Pior e principalmente: não sabem esperar.
Todas essas qualidades são fundamentais na construção de um ser humano íntegro, independente e pleno, e devem ser aprendidas em casa, em suas rotinas.
Precisamos pausar. Parar e olhar em volta. Colocar a mão na consciência, tirá-la um pouco da carteira, do telefone e do volante: estamos enlouquecendo nossas crianças, e as estamos impedindo de entender e saber lidar com seus tempos, seus desejos, suas qualidades e talentos.
Estamos roubando o tempo precioso que nossos filhos tanto precisam para processar a quantidade enorme de informações e estímulos que nós e o mundo estamos lhes dando.
E já que resvalamos o assunto para a leitura: nossas crianças não lêem mais. Muitos livros infantis estão disponíveis para tablets e iPads, cuja resposta é imediata ao menor estímulo e descaracteriza a principal função do livro: parar para ler, para fazer a mente respirar, aprender a juntar uma palavra com outra, paulatinamente formando frases e sentenças, e, finalmente, concluir um raciocínio ou uma estória.
Cerquem suas crianças de livros e leiam com elas, por amor. Deixem que se esparramem em almofadas e façam sua imaginação voar!